Estou velho. Para além da perspectiva biológica de que envelhecemos um pouco mais todos os dias, estou velho. As horas de milhagem que venho acumulando em coletivos lotados, as preocupações que nunca pensei que pudesse ter aos 25 anos de idade; todos os problemas que acabam sempre se esticando até mim. Eu vinha com calma, reclamando, tateando o caminho, mas, de repente, a vida resolveu desesperar e nem mesmo consegui entender ainda. Hoje chego em casa para reabastecer-me de aborrecimentos, ser chamado de intolerante e ouvir discursos que praticamente transformam todos os meus esforços em obrigações mal cumpridas. Eu queria ter problemas meus, só meus. Era o que eu queria. Mas a idade estaciona o espetáculo do tempo enquanto cabelos brancos surgem rapidamente, o rancor se instaura nas curvas do rosto e a vergonha passeia em perguntas que não sei responder. Queria estar errado. Queria ser novamente aquele adolescente estereotipado que se acha eterna vítima. Mas não é mais assim, aliás, pensando bem, nunca foi. Estou velho. Todas as pessoas que conheço e prezo cabem numa pequena mesa de bar que vai se esvaziando junto de minha incapacidade de permanecer entre elas. O fato é que sentei-me na cama, porta fechada, e liguei a música num som surdo. A música que me traz uma lembrança impossível. Que me faz chorar por saber que poderia ser diferente. Aliás esse é o grande castigo do final: saber que poderia ser de outra forma, mas não poder mudar. Estou velho e não são os dias nem os atos. Me fizeram velho antes do tempo. Deixo a música repetir infinitas vezes até que a noite me prove que não haverá sono. Há laços que não se pode simplesmente ignorar, infelizmente são esses que sempre se fazem mais tensos e irresponsáveis. Estou velho e tão em mim que não há nenhuma possibilidade de fuga. A solidão ajuda, diminui o fado. Não entendo, mas sei o que gostaria que fosse. Deve haver outro lugar. |